O Brasil vivenciou nos últimos anos, especialmente após a pandemia de Covid-19, uma aceleração sem precedentes no processo de digitalização.
O isolamento social e a necessidade de trabalho home office fez com que empresas de diferentes portes e setores adaptassem seus sistemas ao cenário remoto, exigindo investimento em tecnologias que garantissem a continuidade das operações.
Atualmente, as indústrias buscam cada vez mais os mais altos patamares da maturidade digital, mesmo que desafios significativos precisam ser superados.
Mas, como o Brasil se encontra neste cenário? É o que vamos descobrir.
O impulso da pandemia
A crise sanitária proveniente da pandemia foi um catalisador para a transformação digital no Brasil. Haja vista a necessidade de manter as operações ativas durante a pandemia, as empresas recorreram a plataformas de videoconferência, ferramentas de gestão de projetos e outros equipamentos que possibilitam o trabalho remoto.
Analogamente, os consumidores tiveram que se adaptar ao comércio eletrônico, e isso exigiu das empresas melhorias logísticas, automação dos centros de distribuição e ampliação de canais de venda online.
Vamos ao caso prático? Então veja o exemplo do Mercado Livre. No início da pandemia, apenas 31% das entregas da empresa ocorriam em 24 horas. Após a digitalização e automação, o número saltou em 50%!
Com tamanho resultado, a empresa planeja investir R$23 bilhões para aumentar ainda mais a eficiência logística.
Outros exemplos? É pra já!
A Simpress, especializada em aluguel de equipamentos eletrônicos, viu seu faturamento crescer 20% em 2019.
Já a Sankhya, desenvolvedora de softwares de gestão, cresce a uma taxa anual de 30% e, com aportes milionários, já realizou oito aquisições nos últimos anos.
Esses dados mostram que a digitalização deixou de ser uma tendência futura para se tornar um fator essencial de sobrevivência e crescimento.
Onde estamos hoje?
Segundo o estudo “Tendências na Transformação Digital do Ambiente de Trabalho 2025”, realizado pela Zoho Corporation, o Brasil obteve 62,5 pontos em um índice global de maturidade digital, visto que a média é de 62,3.
Método utilizado
Foram entrevistados 4.900 trabalhadores no mundo todo, incluindo mais de 350 brasileiros. Embora o resultado mostre um desempenho promissor, o país ainda está atrás de regiões como Oriente Médio e África (64,6 pontos) e Ásia-Pacífico (63,2 pontos).
Análise geral
A maturidade digital diverge significativamente entre os setores.
O setor de tecnologia lidera com 65,8 pontos, enquanto o governo e o setor financeiro estão em um nível 3 inicial de maturidade.
Saúde, educação, varejo e manufatura, por sua vez, operam no nível 2 avançado.
Setores como hotelaria e logística ainda estão em níveis iniciais, com baixa adoção de ferramentas digitais de segurança e colaboração.
Na força de trabalho, 28% dos colaboradores brasileiros já estão em um nível digital avançado. Embora este nível esteja acima da média global, 51% dos colaboradores do país ainda estão em transição, enquanto 21% continuam presos a processos manuais.
Os principais desafios
Apesar do país avançar rumo a digitalização, o Brasil ainda enfrenta barreiras significativas para alcançar níveis mais altos de maturidade digital, tais como:
- Segurança digital: apenas 16% das empresas brasileiras utilizam alertas avançados contra e-mails suspeitos, enquanto 41% não possuem sequer um canal direto para relatar ameaças cibernéticas. Além disso, 27% das organizações têm uma gestão eficaz de senhas, expondo-se a riscos;
- Resistência cultural: a falta de capacitação e o receio dos funcionários em adotar novas tecnologias ainda retardam a digitalização em muitas organizações. Tenho certeza de que vocês conhecem pessoas de perfil mais conservador que acreditam que a automação é “balela”;
- Investimentos altos: para atingir o nível 3 completo de maturidade digital, as empresas precisam investir entre US$250 mil e US$500 mil anuais para cada 1.000 funcionários. Já para o nível 4 — o mais alto — esse valor pode alcançar US$1 mil por colaborador.
Além disso, não podemos deixar de mencionar o gargalo estrutural: a falta de profissionais qualificados.
O setor de tecnologia representa apenas 3% do PIB brasileiro. Já nos EUA esse número chega a 10%.
A ausência de mão de obra especializada leva muitas empresas a direcionarem seus investimentos para o exterior.
Pegue a FCamara como exemplo: a empresa já atua em Portugal, Inglaterra, Holanda e Dubai, e planeja abrir capital fora do país como parte da estratégia de expansão.
As oportunidades à frente
Não podemos deixar de evidenciar que o país tem potencial para se tornar uma economia digital e inovadora, embora enfrente seus desafios.
As tecnologias emergentes, como 5G e a Internet das Coisas (IoT) são promissoras a novos horizontes, e por isso as empresas devem adotar soluções tecnológicas relacionadas que impactam na competitividade.
Além disso, tem-se que as organizações têm concentrado os seus esforços na coleta e organização de dados por meio da criação de data lakes e incorporação de novas fontes de informação.
Assim, a partir de regras de privacidade mais rígidas, a sustentabilidade da transformação digital será facilitada.
Segundo Juliana Trece, economista do Instituto Brasileiro de Economia da FGV, “o crescimento desse setor no Brasil será sustentável porque as empresas precisarão adotar, cada vez mais, novas tecnologias para se expandir”.
Em outras palavras, não há caminho de volta: digitalizar-se é a única forma de permanecer competitivo e relevante.
Considerações finais
O país superou a média global de maturidade digital e as empresas presentes cresceram em passos largos em meio às adversidades nestes últimos anos. Isso é excelente.
Contudo, é notório que há muito a ser feito. A segurança da informação (cibersegurança), qualificação profissional, infraestrutura tecnológica e a cultura de inovação devem ganhar atenção nas organizações.
Portanto, ainda que a pandemia tenha acelerado os passos da digitalização, cabe ao país manter o ritmo e superar os obstáculos presentes, especialmente por meio de gestão, estratégias e mudança de mentalidade dos atuais profissionais e daqueles que ainda virão.


